Para qualquer profissional de TI que lida com redes, o Endereçamento IPv4 é um conceito fundamental e inescapável.
Apesar do avanço do IPv6, o IPv4 ainda é a base da grande maioria das redes globais, desde pequenas LANs até grandes datacenters.
Dominar suas nuances — classes, máscaras de sub-rede, CIDR, VLSM e subnetting — é crucial para projetar, configurar e solucionar problemas de conectividade de forma eficiente.
O Que É o Endereçamento IPv4?
O Endereçamento IPv4 é o sistema numérico usado para identificar dispositivos em uma rede.
Um endereço IPv4 é uma sequência de 32 bits, geralmente representada em quatro octetos decimais separados por pontos (por exemplo, 192.168.1.1). Cada octeto pode variar de 0 a 255.
A estrutura de um endereço IPv4 é dividida em duas partes principais:
- Parte de Rede (Network ID): Identifica a rede à qual o dispositivo pertence. Todos os dispositivos na mesma rede local compartilham a mesma Network ID.
- Parte de Host (Host ID): Identifica um dispositivo específico dentro dessa rede. Deve ser única para cada dispositivo na rede.
A distinção entre essas duas partes é feita pela Máscara de Sub-rede.
Máscaras de Sub-rede e o Conceito de Classes no Endereçamento IPv4
Historicamente, o Endereçamento IPv4 era dividido em classes para determinar a parte de rede e a parte de host por padrão.
Embora as classes A, B e C ainda sejam ensinadas e úteis para compreensão conceitual, elas foram largamente substituídas pelo CIDR (Classless Inter-Domain Routing).
- Classe A:
- Faixa de IPs:
1.0.0.0a126.255.255.255 - Máscara Padrão:
255.0.0.0ou/8(primeiro octeto é rede) - Características: Poucas redes, mas com um número gigantesco de hosts por rede. Ideal para grandes organizações.
- Faixa de IPs:
- Classe B:
- Faixa de IPs:
128.0.0.0a191.255.255.255 - Máscara Padrão:
255.255.0.0ou/16(primeiros dois octetos são rede) - Características: Número moderado de redes e de hosts por rede. Usado por organizações de médio porte.
- Faixa de IPs:
- Classe C:
- Faixa de IPs:
192.0.0.0a223.255.255.255 - Máscara Padrão:
255.255.255.0ou/24(primeiros três octetos são rede) - Características: Muitas redes, mas com um número limitado de hosts (254) por rede. Comum em pequenas empresas e redes domésticas.
- Faixa de IPs:
Além dessas, existem as Classes D (multicast) e E (reservada para pesquisa).
É vital que o profissional de TI compreenda como essas classes definiam a estrutura inicial do Endereçamento IPv4.
CIDR (Classless Inter-Domain Routing): O Padrão Atual do Endereçamento IPv4
O CIDR foi introduzido para superar as limitações das classes, principalmente o desperdício de IPs.
Ele permite que a parte de rede de um endereço IPv4 seja definida por um número arbitrário de bits, indicado por uma barra (/) seguida pelo número de bits de rede (prefixo).
Exemplo:
192.168.1.0/24: Os primeiros 24 bits são para a rede, e os 8 bits restantes para hosts. Isso resulta em 2^(32-24) – 2 = 254 hosts utilizáveis.10.0.0.0/8: Os primeiros 8 bits para a rede, e 24 bits para hosts, permitindo um número muito maior de hosts.
A flexibilidade do CIDR é fundamental para o uso eficiente do Endereçamento IPv4, permitindo a criação de sub-redes de tamanhos variados e a agregação de rotas.
Subnetting (Sub-redes): Dividir para Conquistar
Subnetting é o processo de dividir uma rede IP maior em redes menores e mais gerenciáveis, chamadas sub-redes.
Isso é feito “pegando emprestado” bits da parte de host do endereço IP para estender a parte de rede, criando uma nova máscara de sub-rede.
Por que usar subnetting?
- Otimização do Espaço de IP: Evita o desperdício de endereços, pois você pode criar sub-redes do tamanho exato necessário.
- Melhora da Segurança: Isola segmentos da rede, impedindo que tráfego de um departamento afete outro.
- Redução do Tráfego de Broadcast: Sub-redes menores significam domínios de broadcast menores, reduzindo o tráfego desnecessário e melhorando o desempenho da rede.
- Facilita o Gerenciamento: Permite organizar a rede de forma lógica (por departamento, por andar, por tipo de dispositivo).
Exemplo Prático (de uma Classe C para sub-redes menores):
Considere a rede 192.168.1.0/24. Se você precisar de 4 sub-redes, cada uma com aproximadamente 60 hosts:
- Um
/24(255.255.255.0) permite 254 hosts. Para ter mais sub-redes, precisamos “pegar emprestado” bits. - Para 4 sub-redes, precisamos de 2 bits (2^2 = 4). Isso transforma o
/24em/26. - Uma máscara
/26é255.255.255.192(em binário:11111111.11111111.11111111.11000000). - Com
/26, teremos sub-redes com 64 endereços cada (2^(32-26) = 64), sendo 62 hosts utilizáveis.
As sub-redes seriam:
192.168.1.0/26(hosts:192.168.1.1a192.168.1.62)192.168.1.64/26(hosts:192.168.1.65a192.168.1.126)192.168.1.128/26(hosts:192.168.1.129a192.168.1.190)192.168.1.192/26(hosts:192.168.1.193a192.168.1.254)
VLSM (Variable Length Subnet Mask): A Otimização Máxima
VLSM é a aplicação do CIDR para permitir que diferentes sub-redes dentro da mesma rede maior tenham máscaras de sub-rede de comprimentos variáveis.
É o que realmente permite a máxima eficiência no uso do Endereçamento IPv4.
Por que usar VLSM?
- Minimiza o Desperdício de IPs: Em vez de usar uma sub-rede
/26para um link ponto a ponto que precisa de apenas 2 IPs, você pode usar um/30. Isso libera IPs para outras partes da rede. - Flexibilidade Extrema: Permite dimensionar sub-redes para a necessidade exata de cada segmento (ex:
/24para um andar,/28para um laboratório,/30para links WAN). - Melhora a Roteabilidade: Reduz a necessidade de tabelas de roteamento muito grandes, pois sub-redes adjacentes podem ser sumarizadas.
Um bom design de rede sempre utiliza VLSM para otimizar o Endereçamento IPv4.
Endereços Especiais no Endereçamento IPv4
É importante conhecer alguns endereços com funções específicas:
- Endereço de Rede: O primeiro endereço em uma sub-rede (parte de host toda zero). Identifica a sub-rede em si, não um host.
- Endereço de Broadcast: O último endereço em uma sub-rede (parte de host toda um). Usado para enviar dados a todos os hosts naquela sub-rede.
- Loopback (
127.0.0.1): Usado para testar o funcionamento da pilha TCP/IP no dispositivo local. - Endereços Privados (RFC 1918): São usados em redes locais e não são roteáveis na internet pública. Isso ajuda a conservar o número limitado de endereços IPv4 públicos.
10.0.0.0a10.255.255.255(10.0.0.0/8)172.16.0.0a172.31.255.255(172.16.0.0/12)192.168.0.0a192.168.255.255(192.168.0.0/16)
- Shared Address Space (RFC 6598):
100.64.0.0a100.127.255.255(100.64.0.0/10)- Características: Este bloco é reservado para uso em redes de provedores de serviço (ISPs) que implementam Carrier-Grade NAT (CGN). Ele permite que múltiplos clientes usem o mesmo endereço IP público, uma solução temporária para a escassez de IPs IPv4. Esses endereços são roteáveis apenas dentro da rede do provedor e nunca na internet pública.
Conclusão
O Endereçamento IPv4, com sua complexidade de classes, máscaras de sub-rede, CIDR, subnetting e VLSM, permanece como uma habilidade essencial para qualquer profissional de TI.
Dominar esses conceitos permite não apenas configurar redes, mas também otimizar o uso dos recursos de IP, melhorar a segurança, reduzir o tráfego e planejar a escalabilidade.
Apesar do futuro pertencer ao IPv6, o IPv4 continuará a ser um pilar fundamental da internet por muitos anos, exigindo que os especialistas em rede mantenham seu conhecimento afiado.
Sugestão de Livros
Referências
RFC 1918 – Address Allocation for Private Internets
CCNA Official Cert Guide (Wendell Odom) ICND1 e ICND2
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Escrito por Rodrigo Tomazini em 18/08/2025


